Centenas de homens armados romperam nesta quinta-feira o cordão policial na Praça da Independência de Kiev, após uma trégua fracassada anunciada na noite de quarta-feira, num confronto que deixou dezenas de mortos no centro da capital ucraniana, cenário de novos confrontos com as forças de segurança. E os números do massacre podem ser ainda maiores.
Segundo o chefe do serviço médico dos manifestantes, mais de 60 pessoas morreram e 500 ficaram feridas nesta quinta-feira. Além disso, 67 policias estão sendo mantidos como reféns dos manifestantes, segundo o Ministério do Interior. Após as mortes, o prefeito de Kiev anunciou que abandona o partido do presidente Viktor Yanukovytch, como forma de protesto contra “o banho de sangue” no centro da capital ucraniana.
Segundo o Departamento de Saúde de Kiev, 67 pessoas morreram desde terça-feira, o que colocaria o número oficial de mortos somente nesta quinta em 39. Este é um dos mais violentos episódios de violência que a Ucrânia viveu nas últimas duas décadas.
— Estou disposto a tudo para deter a luta fratricida e o banho de sangue no coração da Ucrânia, na praça da Independência. A vida humana deve ser o valor supremo de nosso país, e nada deve contradizer este princípio — disse o prefeito Volodimir Makeienko.
Depois da troca de acusações sobre a autoria do ataque, a polícia informou que utilizou armas de fogo em “legítima defesa”, quando homens armados não identificados atiraram contra policiais. Jovens militantes de capacete — que fazem parte do grupo que autodenomina Pravy Sektor — foram vistos com rifles e outras armas de fogo.
“Para libertar os reféns, os policiais têm o direito de usar suas armas”, disse o Ministério em um comunicado em seu website.
Os três principais líderes da oposição declararam que os novos confrontos são uma “provocação deliberada” do governo contra os protestos pacíficos. O governo, por sua vez, culpou os manifestantes por terem dado início à violência, com uso de atiradores.
“A retomada dos confrontos em Maidan (Praça da Independência) durante a trégua anunciada é uma provocação deliberada do governo”, disseram em comunicado divulgado nesta quinta-feira.
Já uma nota do gabinete do presidente Viktor Yanukovich afirmou que “eles (os manifestantes) partiram para a ofensiva”. Funcionários da sede do governo ucraniano deixaram o local, em consequência dos novos confrontos. Uma fonte afirmou que os trabalhadores receberam uma ordem oficial.
Um comunicado do ministério do Interior informou que um franco-atirador apontou contra os policiais e 20 agentes ficaram feridos. O órgão negou ainda relatos de que algumas forças de segurança estariam se aliando com manifestantes. Segundo imagens divulgadas pela televisão, um policial foi capturado e levado para o centro da praça. A polícia usou balas de borracha para repelir o ataque, ferindo uma dúzia de manifestantes, que foram transportados em macas para a enfermaria improvisada pela oposição. Eles responderam com pedras e coquetéis molotov.
O lobby de um hotel foi transformado em hospital improvisado para os feridos.
Vinte e um corpos, cobertos com mantas, estavam no chão na região, de acordo com um fotógrafo da Reuters. Segundo Vasily Fedosenko, seis corpos foram vistos em uma área da praça e, a cerca de 100 metros de distância, havia outros quatro corpos. Todos eram civis.
Polícia aconselha moradores a ficarem em casa
Com as novas mortes, sobe para pelo menos 53 o número de vítimas fatais durante uma semana de protestos no país. O aumento da violência fez com que o ministério do Interior ucraniano emitisse um comunicado pedindo que os moradores de Kiev não saiam de casa ou se dirijam ao centro da cidade.
“Neste momento mais vale limitar os deslocamentos em carros particulares e não sair às ruas. Há pessoas armadas com intenções agressivas nas ruas de Kiev”, informou em comunicado.
Mais cedo, o ministério de Saúde informou que entre os feridos nas manifestações da oposição na terça-feira há quatro jovens de menos de 18 anos e dois cidadãos estrangeiros. O presidente Viktor Yanukovich tinha anunciado uma trégua com a oposição antes da chegada nesta quinta-feira à capital ucraniana de diplomatas europeus e de um alta autoridade russa.
O Globo







