
Multado duas vezes pelo Ibama por vender artesanato feito de penas, um
indígena de uma aldeia no município de Oriximiná (PA) descobriu ter uma
dívida de R$ 2,98 milhões com a União. Timoteo Tayatasi Wai Wai foi
autuado em R$ 16,5 mil, em 2007, por expor itens debaixo do antigo
prédio da Funai em Brasília
e em R$ 70,5 mil, em 2009, por transportar artigos do tipo.
Os prazos
para quitar as dívidas venceram e, como elas não foram quitadas, houve
acréscimo de outros encargos.
Os artigos – brincos, colares, cocares e tiaras – eram feitos de penas
de arara e de papagaio. Segundo o Ibama, Wai Wai não tem autorização
para comercializar as peças e por isso infringiu a Lei de Crimes
Ambientais. O órgão pediu à Justiça o bloqueio das contas bancárias do
indígena, “a fim de evitar possível desfazimento de bens ou valores em
depósito de instituições financeiras após a citação”.
A solicitação foi acatada em novembro do ano passado. Três semanas
depois, um oficial de Justiça intimou o indígena e alegou que só não
cumpriu a determinação porque o único bem que ele tem é uma casa, onde
mora com a mãe, avaliada em R$ 15 mil. Ele relatou só ter encontrado uma
televisão, uma geladeira pequena, um fogão, uma mesa com cadeiras de
madeira, duas camas e um aparelho de som. Não havia carro, moto ou
bicicleta.
A Funai disse em nota considerar o valor exorbitante e a situação
complicada. A entidade acompanha o caso. "Sem orientação e desconhecendo
as leis e os trâmites burocráticos, ele não fez defesa e não pagou a
multa. E continuou produzindo artesanato", afirma. "[Ele] foi novamente
multado, agora em Parintins, na festa do Boi. Suas multas cresceram como
uma bola de neve."

O deputado federal Nilson Pinto (PSDB-PA) enviou ofícios aos
ministérios da Justiça e do Meio Ambiente pedindo que sejam adotadas
providências com relação ao caso. O G1 procurou os
órgãos, mas não recebeu retorno do Ministério da Justiça. O Ministério
do Meio Ambiente informou que analisa o documento.
“A situação é absurda, extremamente absurda. Pedi que do alto de suas
autoridades consertem aquilo, que tomem providências. Isso foi no dia 11
[de junho] e estou até agora esperando resposta. Até agora não tive
nenhuma resposta”, afirma o parlamentar. “É um indígena tentando viver
do seu artesanato, é a coisa mais correta do mundo, respeito a sua
cultura.”
De acordo com o deputado, Tayatasi afirma que em uma das apreensões
portava itens que somavam menos de R$ 3 mil e que foi alvo de
truculência. Ele fala português e está concluindo ensino médio em
Oriximiná.
“Considero isso uma violência à cultura indígena, que aliás estava
sendo festejada em Parintins naquela grande festa. Segundo, uma
violência ao ser humano, independentemente de ser índio, porque
violência não se faz com ninguém. [...] O fiscal do Ibama acha que
índios vão sobreviver? É uma insanidade, eu considero. Eles vivem do que
produzem, e o artesanato é a mais óbvia que pode ajudá-los a
sobreviver.”
Wai Wai
Também pertencente à tribo, o indígena Paulo afirma que a aldeia tem 1.082 habitantes. O grupo tem contato com o restante dos brasileiros há cerca de 50 anos. No local há água tratada, eletricidade e um orelhão. O acesso ocorre por barco e de avião – a viagem a partir de Oriximiná dura uma hora e meia.

“Nós, povos indígenas, nós vivemos como tradicionalmente na nossa
localidade de Mapuera. Nós como povos indígenas vivemos da criatividade.
Fazemos colar com pena, brincos. Aí esse artesanato virou uma renda
para os povos indígenas desde o ano de 1995”, afirma.
Segundo ele, o Ibama e a Funai conversaram com representantes da tribo
pouco antes de Timoteo ser multado falando sobre a proibição de usar
subprodutos da fauna na confecção dos artigos. O indígena afirma que as
entidades se comprometeram a dar assistência ao grupo.
“Nós vivemos só disso. Não temos além disso, outra renda a gente não
tem. Teve uma orientação, e até a gente sabia que era um decreto, mas, o
que acontece, todos os indígenas, mesmo depois de orientados a gente
precisava sobreviver e a gente não recebia o apoio”, diz. “A gente tem
interesse de vender, e os brancos têm interesse de comprar. Eles também
sabem que é errado, ‘pirata’.”
O deputado federal Nilson Pinto (PSDB-PA) declarou considerar a postura
do Ibama um equívoco. “É um monumento brutal à insanidade burocrática
brasileira. É uma demonstração muito clara de que o estado brasileiro
não está preparado para lidar com esses brasileiros, que são brasileiros
muito antes da gente.”






