
O depoimento estava entre as denúncias recebidas durante audiência
pública realizada pela Comissão de Direitos Humanos da Alesp, cujo
objetivo era colher casos de violações dentro da instituição de ensino.
Durante mais de quatro horas, foram feitos relatos de violência sexual,
maus-tratos, humilhações, xenofobia, homofobia, racismo. Em silêncio, a
plateia,
formada na sua maioria por estudantes da USP, acompanhava tudo
atentamente.
Antes de começar a descrever os dois casos, X. fez um desabafo.
— Queria dizer que é muito importante estar aqui falando dessas coisas.
Eu me senti muito silenciada ao longo destes quase quatro anos em que
estou na faculdade.
O primeiro episódio de abuso, segundo ela, aconteceu dentro
da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz. A universitária conta que
participava de uma festa na associação, onde passou a tarde bebendo com
os colegas. Em determinado momento, quando a festa estava perto de
acabar, decidiu ir a outro evento, dessa vez, promovido pelo centro
acadêmico. Ela diz que um integrante da Atlética alegou que a jovem
havia bebido demais e se ofereceu para acompanhá-la.
— Quando a gente estava saindo da Atlética, ele me puxou para uma
salinha, acho que era um depósito de materiais, não sei bem o que é,
estava muito escura, e começou a me agarrar, a tentar me beijar e eu
tentava resistir. Nisso, a gente caiu no chão e ele veio em cima de mim,
abaixou minha calça. Eu nunca denunciei essa violência que sofri.
Guardei para mim durante muito tempo. Só fui falar sobre isso depois que
o coletivo feminista foi criado.
Nessa troca de experiências com membros do coletivo, ela afirma ter
descoberto que várias meninas haviam passado por situação semelhante com
colegas. Disse que descobriu ainda que o agressor dela teria feito o
mesmo com outras jovens.
— É uma coisa bastante comum.
Quando tinha dois meses de faculdade, X. relata que vivenciou uma
segunda situação de violência sexual durante a festa Carecas do Bosque,
promovida pela Atlética. O estupro teria ocorrido dentro da barraca do
Judô. Mais tarde, ela viria a descobrir que o suspeito seria um
funcionário.
— Na barraca, eu bebi algumas doses de uma suposta tequila. Na verdade,
eles vendem como tequila, mas é uma mistura de destilados [...] Bebi
algumas que me foram oferecidas por um menino da minha turma. Depois,
não tenho mais memória do que aconteceu. Fui acordar no hospital, em um
atendimento do pronto-socorro.
Por meio de uma testemunha, um atleta do judô, ela ficou sabendo que um homem estava sobre ela com a calça abaixada.
— Falei que tinha vontade de denunciar. Nesse momento, ele falou para
mim que eu não deveria fazer isso, porque não teria como provar.
Exame de corpo de delito
Segundo X., ela também teria sido desencorajada por estudantes a levar à
diante a denúncia. A universitária, que procurou sua ginecologista
particular para fazer exame de corpo de delito, acionou a polícia,
registrou ocorrência e um inquérito foi instaurado.
— Nesse meio-tempo, eu ia conversar com meus colegas de turma. Alguns
que estavam na barraca e, de certa forma, presenciaram o que tinha
acontecido. Eles me falavam que eu tinha que esquecer aquilo, que eu
tinha culpa pelo que havia acontecido, porque tinha bebido muito e que
eu tinha que tocar minha vida.
Desestimulada, ela acabou, em um primeiro momento, deixando o inquérito policial de lado.
— Retomei neste ano. Foi quando descobri diversas coisas que eu não
sabia na época. A testemunha principal só foi chamada para depor neste
ano. No relato dele, ele disse que eu estava totalmente desacordada e
que teve dificuldade em me acordar. Na época, muitos colocaram a dúvida.
Será que foi consentido? Você não sabe. Estava bêbada [...] Descobri
que o funcionário conseguiu entrar na barraca porque deu dinheiro para
os seguranças e, no depoimento dele, ele falou que deu dinheiro para
dois alunos que estavam na barraca. Fiquei quase três anos sem saber o
que havia acontecido.
A universitária afirma que ouvia de outros estudantes que “as coisas da
faculdade tinham que ser resolvidas dentro da faculdade”. Ouvia também
que “menina direita não bebia até ficar desacordada”.
Ela conta que sofreu tentativas sistemáticas de silenciamento. Um dos
argumentos é que, se o caso vazasse, a imagem da Atlética e da festa
promovida por ela seriam destruídas.
— A questão do silenciamento foi bastante violenta para mim.
Isolamento social
Isolamento social, estigmatização e, ameaças passaram a fazer parte da
vida de Y., aluna da FMUSP, depois que ela decidiu relatar em uma nota,
com o apoio do NEGGs (Núcleo de Estudos em Gênero Saúde e Sexualidade), a
violência sexual que relata ter sofrido.
Durante a audiência na Alesp, que contou com a presença de professores
da faculdade, ela afirmou que, em novembro do ano passado, participava
de uma festa chamada Cervejada do sexto ano, organizada pelo Centro
Acadêmico dentro do espaço físico da faculdade, quando foi abordada por
dois alunos da instituição.
— Eles me convidaram para ir para o carro no estacionamento, que ficava
bem ao lado de onde estava acontecendo a festa. Comecei a falar que não
queria e eles insistiram fortemente para eu ir para o carro [...] Eu
insistia que não queria e eles me chamavam de chata, que era para eu ir.
Até que acabei indo. Na hora que cheguei, o carro estava em um lugar
super deserto. Eles começaram a me beijar, a passar a mão nas minhas
partes íntimas, nos meus seios, enfiaram a mão dentro da minha calça.
Tudo contra minha vontade. Fiquei desesperada. Gritava para que eles
parassem. Um deles ficou muito bravo comigo e gritava para eu parar de
fazer aquilo, porque sabia que eu estava querendo. Neste momento, chegou
um casal no estacionamento e a menina deu um grito e conseguiu fazer
com que eu me livrasse daquela situação.
Sem prejuízo à imagem da faculdade
De acordo com a jovem, pouco dias depois, o chefe da graduação a
orientou a registrar boletim de ocorrência, “ainda que pudesse
prejudicar a imagem da faculdade” e ela foi levada, pelo segurança, à
delegacia da mulher.
— Depois disso, não tive mais nenhum apoio. Não tive instruções se
poderia fazer um processo administrativo, uma sindicância. Não tive
acolhimento emocional. Até porque, cruzo com esses meninos semanalmente
[...]. O NEGGs me deu apoio e a gente escreveu uma nota com meu relato e
coisas gerais sobre estupro e, violência sexual. Depois da nota, a
reação da faculdade foi de extrema hostilização.
Y. afirma que colegas queriam convencê-la a todo custo de que não tinha acontecido nada, que era “um crime sem importância”.
— As pessoas duvidavam do que tinha acontecido. Falavam que era uma versão sensacionalista.
Ela diz que foi agredida nas redes sociais.
— Falaram que eu podia prejudicar a carreira dos caras, que eu sabia
que em medicina conta muito a imagem. Além disso, sofri um forte
processo de estigmatização dentro da faculdade. Falavam que eu era uma
vagabunda, que eu dava para todo mundo, que eu não tinha o direito de
reclamar.
Segundo conta, o NEGGs fez pressão junto ao centro acadêmico, que
enviou um ofício para a diretoria da faculdade pedindo para abrir uma
sindicância. A investigação interna concluiu, conforme a estudante, que
“tudo tinha sido consensual e que o problema havia sido o álcool”.
— O resultado da apuração foi exposto em congregação. Eu me senti humilhada.
Racismo
Embora
não houvesse representantes da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto) na audiência, o caso de racismo ocorrido na instituição
foi mencionado. Conforme publicado pelo R7,
nas páginas da cartilha de hinos da "Batesão" (bateria da faculdade),
uma música com teor racista e machista provocou indignação. O material
teria sido divulgado em uma palestra de enfermagem cujo tema era
"violência contra a mulher", junto com o kit de matrícula da
universidade para os estudantes de medicina.
Na letra, que foi lida durante a audiência, a figura feminina é
colocada na condição de objeto sexual. A música fala de loira e morena,
mas fica ainda mais agressiva ao se referir à mulher negra, que é
tratada como “preta imunda” e “fedorenta”.
Outro lado
O R7 procurou, na noite desta terça-feira (11), quando
a audiência ainda estava em andamento, a Faculdade de Medicina da USP.
Até o momento da publicação desta reportagem, a instituição não havia se
pronunciado.






