
Qual brasileiro nunca ouviu falar de Silvio Santos? Um dos
rostos mais conhecidos do país, o carismático apresentador é tão popular
que já esteve prestes a se candidatar à presidência.
A simpatia, no
entanto, está longe de ser o único trunfo de um dos homens mais ricos do
Brasil. Por trás do sorriso que alegra as tardes de domingo de milhões
de brasileiros está um dos mais talentosos empreendedores da história do
país, que soube, como poucos, explorar o potencial da economia popular e
dos meios de comunicação de massa para criar um império empresarial que
vai muito além do SBT.
Filho de dois imigrantes judeus nascidos no antigo Império
Otomano (seu pai, Alberto, era de uma região que hoje pertence à Grécia,
enquanto sua mãe, Rebecca, era de uma cidade que atualmente fica na
Turquia), Senor Abravanel, nome de batismo de Silvio Santos, nasceu em
12 de dezembro de 1930, no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro.
Ele tinha cinco irmãos, mas era com Leon, seu irmão mais
novo, que ele se dava melhor e sempre arrumava um jeito de ir de graça
às sessões de cinema na Cinelândia. Durante as eleições de 1946, Silvio,
então com 14 anos, viu um homem que vendia capinhas de plástico para
guardar títulos de eleitor nas ruas do Rio de Janeiro, e teve seu
primeiro gesto como empreendedor ao decidir fazer o mesmo. Como a
repressão da polícia ao comércio ambulante era grande, ele e Leon
vendiam seus produtos na rua por apenas 45 minutos por dia, que era o
tempo de almoço dos guardas.
Das ruas para o rádio
O potencial da voz de Silvio logo chamou a atenção nas ruas
do Rio, e ele foi convidado para fazer um teste na Rádio Guanabara.
Passou em primeiro lugar, superando nomes como Chico Anysio, mas logo
voltou a trabalhar como ambulante, onde faturava mais. Aos 18 anos, ele
foi convocado pelo Exército e passou a servir na Escola de
Paraquedistas, onde chegou a realizar alguns saltos. Como a carreira de
camelô era incompatível com a de militar, ele voltou a trabalhar como
locutor em uma rádio de Niterói nos dias de folga, para ter uma renda
extra.
Para ir trabalhar em Niterói, Silvio pegava todos os dias a
barca que cruza a Baía de Guanabara, e em uma das viagens ele teve a
ideia de montar um serviço de alto-falantes no transporte, que até então
era silencioso. Nos intervalos entre uma música e outra, ele fazia
propagandas de alguns produtos. A iniciativa fez tanto sucesso que
algumas barcas passaram a contar com um bar e um bingo. Ao comprar uma
bebida ou refrigerante, o consumidor ganhava uma cartela de bingo para
concorrer a prêmios como jarras e quadros. A ideia veio de Silvio, é
claro.
Aos 20 anos, o jovem radialista decidiu tentar a vida em São
Paulo, onde apresentava espetáculos e sorteios em caravanas de artistas.
Nesta época, acabou se formando como técnico em contabilidade, mas
decidiu seguir na carreira artística, conseguindo uma nova vaga como
locutor de rádio da Rádio Nacional de São Paulo. Para incrementar a
renda, ele criou uma revista chamada “Brincadeiras para Você”, que
trazia palavras cruzadas, passatempos e charadas, e era vendida por ele
nos comércios da cidade.
Baú de oportunidades
O talento para os negócios abriu as portas para o
empreendimento que transformaria Silvio em bilionário. Em 1958, seu
amigo e também radialista Manoel da Nóbrega estava com dificuldades para
administrar uma empresa de venda de brinquedos a prazo. O Baú da
Felicidade era um sistema de carnês em que o cliente pagava as
prestações de uma caixa de brinquedos ao longo do ano e recebia os
produtos na época do Natal.
Nóbrega havia vendido muitos carnês, mas
estava com dificuldade para entregar as mercadorias, então pediu a ajuda
de Silvio para resolver a situação antes de fechar a empresa. Acontece
que Silvio Santos viu no Baú da Felicidade uma grande oportunidade e
assumiu o controle total da empresa. Era o início do que em 1962 viria a
se tornar o Grupo Silvio Santos.
O apresentador manteve o sistema de crediário, mas expandiu o
negócio, criando lojas em que as pessoas poderiam trocar os carnês
quitados tanto por brinquedos quanto eletrodomésticos. Além disso, em
1961 Silvio Santos estreou seu primeiro programa na TV, chamado “Vamos
Brincar de Forca” – que mais tarde se tornaria o “Programa Silvio
Santos” –, onde passou a fazer propaganda do Baú da Felicidade.
Com o tempo, o Baú passou a distribuir não só brinquedos e
eletrodomésticos, mas uma enorme gama de produtos, incluindo carros e
casas. E para suprir as demandas do empreendimento, Silvio criou
empresas nas mais variadas áreas. Entre 1965 e 1975 ele fundou ou
comprou mais de dez empreendimentos – como a Baú Construtora, a
concessionária Vimave e a Marca Filmes – que em 1972 passaram a ser
administradas pela holding Silvio Santos S/A.
O coração do Grupo Silvio Santos, no entanto, era sua divisão
financeira. No cenário de inflação alta do fim dos anos 1960, o
empresário e apresentador se deu conta de que era preciso aplicar o
dinheiro das prestações do carnê do Baú para que esse capital não se
desvalorizasse até o fim do ano.
Assim, em 1969 ele fundou a Baú
Financeira, embrião do que, 21 anos depois, se transformaria no Banco
PanAmericano. Em 1975, a divisão financeira do Grupo Silvio Santos
ganharia ainda o reforço da Liderança Capitalização, que em 1991 passou a
comercializar a TeleSena.
Surge o SBT
Apresentador e empresário de sucesso, na década de 1970
Silvio Santos começou a pensar em ter sua própria emissora de TV. O
sonho foi concretizado em 1975, quando venceu a concorrência para o
Canal 11, do Rio de Janeiro. A emissora, chamada TVS, começou a operar
com mais de 13 mil funcionários e contou com um investimento inicial de
US$ 10 milhões.
Em 1981, Silvio ganhou a concessão de mais quatro canais, que
juntos passariam a formar o Sistema Brasileiro de Televisão, ou SBT.
Toda sua popularidade à frente das câmeras rendeu, inclusive, convites
para que ele entrasse no mundo da política, o que quase aconteceu nas
eleições presidenciais de 1989.
Ele chegou a lançar campanha na
televisão, mas a candidatura acabou barrada na Justiça sob a alegação de
que ele era dono de uma concessionária de TV.
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, Silvio se dedicou
especialmente à consolidação e expansão do SBT, mas nos anos 2000 voltou
a se aventurar em novas áreas. Em 2006 fundou a Jequiti cosméticos e,
em 2007, inaugurou o hotel Sofitel Jequitimar Guarujá.
Depois de cinco décadas de prosperidade, no entanto, o Grupo
Silvio Santos passou por uma situação delicada no começo desta década.
No final de 2010 foi descoberto um rombo de R$ 4,3 bilhões no Banco
PanAmericano, o que levou o empresário a cogitar vender todo o seu
império e ir morar nos Estados Unidos.
Porém, resolveu empenhar várias
de suas empresas para quitar a dívida e apostou suas fichas na Jequiti,
que vem crescendo cerca de 20% ao ano, o dobro da taxa registrada pelo
setor de cosméticos. Passados quatro anos da crise, o Grupo Silvio
Santos segue firme graças ao talento para os negócios de seu
proprietário, tendo faturado US$ 5,9 bilhões em 2013, com um lucro de
US$ 800 mil.
cidadeverde.com





