
Se você tivesse a chance de colocar
um punhado de insetos inofensivos dentro de uma máquina trituradora,
iria gostar da experiência? E que tal assustar um desconhecido com um
barulho alto e insuportável?
Esses são alguns dos testes
realizados pelo psicólogo Delroy Paulhus na tentativa de entender as
personalidades "nefastas" que andam por aí.
Ele basicamente quer
responder a uma pergunta que muitos de nós já fizemos: por que algumas
pessoas têm prazer em serem cruéis? Não aquelas classificadas como
psicopatas ou condenadas por crimes violentos, mas especificamente os
bullies das escolas, os trolls da internet e até membros da sociedade
tidos como respeitáveis, como políticos e policiais.
Segundo
Paulhus, é muito fácil tirar conclusões rápidas e simplistas sobre esse
tipo de indivíduo. "Temos uma tendência a querer simplificar o mundo
dividindo as pessoas entre as boas e as más", afirma o psicólogo,
professor da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá.
Mas, segundo ele, existe uma "taxonomia" para os diferentes tipos de maldade encontradas no dia-a-dia.
'Tríade do Mal'
O
interesse de Paulhus começou com os narcisistas – indivíduos
incrivelmente egoístas e vaidosos que atacam os outros para defender sua
própria autoestima.
Há pouco mais de uma década, um aluno seu,
Kevin Williams, sugeriu que explorassem a possibilidade de essas
tendências ao egocentrismo estarem ligadas a duas outras características
desagradáveis: o maquiavelismo (uma manipulação fria) e a psicopatia
(uma insensibilidade aguda e indiferença ao sentimento dos outros).
Juntos,
os dois cientistas descobriram que os três traços eram bastante
independentes, apesar de às vezes coincidirem, formando uma "Tríade do
Mal".
A honestidade dos voluntários nos testes de Paulhus o
surpreendeu. Ele percebeu que os participantes que concordavam com
frases como "Gosto de provocar pessoas mais vulneráveis" ou "Não é uma
boa ideia me contarem segredos" geralmente se abriam sem pudor e tinham
passado por alguma experiência de bullying, na adolescência ou na vida
adulta.
Essas pessoas também apresentaram uma tendência maior a serem infiéis a seus parceiros e a trapacear em exames.
Paulhus
notou ainda que essas características não apareciam em um primeiro
contato frente a frente com o voluntário. "Essas pessoas estão lidando
com a sociedade cotidianamente, por isso têm autocontrole suficiente
para não se meterem em confusão. Mas uma coisa ou outra em seu
comportamento acaba chamando a atenção", afirma o psicólogo.
Malvado por natureza
Quando Paulhus começou a
examinar a fundo essas mentes macabras, outras perguntas foram surgindo.
Por exemplo, será que as pessoas nascem malvadas?
Estudos que
comparam gêmeos idênticos e não-idênticos sugerem que existe um
componente genético relativamente grande para o narcisismo e a
psicopatia, enquanto o maquiavelismo parece ser mais influenciado pelo
ambiente.
Mas o fato de herdarmos alguns desses traços não nos
isenta de responsabilidades. "Não acredito que uma pessoa nasça com
genes de psicopata e que nada possa ser feito para que isso não se
desenvolva", afirma Minna Lyons, da Universidade de Liverpool, na
Grã-Bretanha.
Basta olhar para os anti-heróis da cultura pop – James Bond, Don Draper (do seriado Mad Man) e Jordan Belfort (o protagonista de O Lobo de Wall Street) – para perceber que personalidades sinistras são bastante sedutoras, uma descoberta sustentada por outros estudos científicos.
Lyons
e sua equipe descobriram ainda que indivíduos notívagos tendem a
apresentar mais características ligadas à maldade. Eles se arriscam
mais, são mais manipulativos e tendem a explorar outras pessoas.
Isso
pode fazer sentido se pensarmos na evolução humana: talvez as pessoas
com uma personalidade hermética tinham mais chances de roubar e ter
relações ilícitas enquanto os demais dormiam, então acabaram evoluindo
para serem criaturas da noite.
Cantos obscuros
Recentemente,
Paulhus começou a examinar mais profundamente as partes mais sombrias
da psique humana. "Preparamos questionários com perguntas mais extremas e
descobrimos que alguns voluntários facilmente admitiam já ter causado
dor em outras pessoas apenas por prazer", conta.
Para ele, essa
tendência não é apenas um mero reflexo do narcisismo, da psicopatia ou
do maquiavelismo, mas sim uma subespécie de maldade, à qual deu o nome
de "sadismo cotidiano".
O "triturador de insetos" propiciou a
Paulhus e seus colegas entender se aquilo se tratava de um comportamento
verdadeiro. Sem que os participantes soubessem, a máquina foi adaptada
para dar aos insetos uma saída, mas ainda assim produzia sons
arrepiantes que imitavam o ruído dos animais sendo esmagados.
Algumas
pessoas eram tão sensíveis que se recusavam a participar da
experiência, enquanto outras demonstraram ter prazer na tarefa. "Esses
indivíduos foram os que marcaram mais pontos no meu questionário sobre
sadismo cotidiano", afirma Paulhus.
Caça aos trolls
Paulhus
acredita que esse comportamento é semelhante ao dos chamados trolls da
internet. "Eles são a versão online do sadista cotidiano porque passam
um bom tempo procurando pessoas para atacar".
Um pesquisa anônima
com indivíduos que deixam comentários com teor de trolagem na rede
concluiu que eles são os que marcam mais pontos nos testes de
personalidade cruel e têm o prazer como sua principal motivação.
Os
estudos de Paulhus chamaram a atenção da polícia e de agências
militares, que querem trabalhar com ele para investigar por que algumas
pessoas abusam de suas posições.
"A preocupação dessas forças é
que alguns indivíduos escolham empregos junto a elas por acreditarem que
terão um mandado para infligir dor em outros", explica o psicólogo. Se
for assim, poderiam ser criados testes que filtrariam e eliminariam
candidatos com uma personalidade mais sombria.
Paulhus também está
animado com os resultados de novas pesquisas sobre "maquiavelismo
moral" ou "narcisismo comunitário" – pessoas com algumas características
macabras mas que as usam para algo positivo.
Ele lembra que
pessoas com essa personalidade em geral têm mais iniciativa e
autoconfiança para realizar o que desejam. "Até Madre Teresa de Calcutá
tinha um lado mais frio", diz o psicólogo. "Afinal, você não vai ajudar o
mundo ficando bonzinho em casa."






