Em março do ano passado, quando a
Operação Lava Jato já estava em andamento, o deputado estadual Edinho
Silva (PT-SP) foi escolhido para ser o tesoureiro da campanha pela
reeleição da presidente com uma ordem explícita da própria: blindar a
candidatura das denúncias de desvios na Petrobrás.
Agora que delatores
afirmam que parte das doações ao PT são na verdade fruto de propina e a
oposição usa as denúncias para pedir o impeachment de Dilma, Edinho
afirma em tom de desafio: “Podem vasculhar, nada será encontrado”.
Segundo
o ex-tesoureiro, indicado recentemente para comandar a Autoridade
Pública Olímpica (APO), “o PT vive o pior momento de sua história”.
A campanha de Dilma recebeu doações vinculadas a contratos firmados pelos doadores com a Petrobrás e o governo?
Em
hipótese alguma, podem vasculhar a campanha, nada será encontrado.
Quando cheguei para ser o tesoureiro, as investigações (da Lava Jato) já
estavam em andamento. Assumi a tarefa da tesouraria para blindar a
campanha daquele ambiente que já era ruim, essa era a minha principal
tarefa. Nunca cheguei perto de absolutamente nada que tivesse vínculo
com contratos da Petrobrás, ao contrário, só ouvia reclamações por conta
da inadimplência que, segundo eles, afetava a saúde econômica de vários
segmentos. Arrecadei dentro da legalidade, as contas foram
rigorosamente auditadas pelo Tribunal Superior Eleitoral e aprovadas por
unanimidade.
Blindar contra quem?
A presidenta Dilma orientou explicitamente que não queria a campanha dela arrecadando em zona cinzenta.
Delatores
da Lava Jato dizem que doações declaradas são, na verdade, propinas
pagas através de uma triangulação entre Petrobrás, empreiteiras e PT. O
que a campanha fez para se blindar?
Nunca
cheguei perto de nada que envolvesse a Petrobrás. Mas essa é uma tese.
Uma tese que não coloca sob suspeição só as doações feitas para um
partido e sim para todos partidos, todos diretórios nacionais e
estaduais. As empreiteiras utilizadas para o desenvolvimento dessa tese
não trabalham apenas para uma empresa pública no Brasil, trabalham para
várias, inclusive empresas estaduais. Se querem levar essa tese até o
fim, de criminalização das doações legais, terão que investigar todas as
empreiteiras, todos os seus contratos em todas as empresas públicas,
também estaduais, e cruzar com todas as doações partidárias. Se não for
assim, será uma investigação contra um só partido. Isso seria rasgar o
princípio da isonomia e acabar com o Estado de Direito.
O
fato de empresas terem contratos com o governo e estatais facilitou a
aproximação para solicitar doações de campanha? O senhor sofreu algum
tipo de assédio durante a campanha?
Eu
arrecadei, assim como todos os demais tesoureiros das demais campanhas,
de empresas sem vínculo contratual com o governo e outras com vínculo.
Mas as empresas não tinham só vínculo com a União, elas tinham vínculos
com os Estados. Tive mais facilidade com empresas do varejo do que com
empreiteiras.
As acusações contra João Vaccari Neto desgastam o PT?
As
pessoas não podem ser julgadas sem que exista nem processo instaurado
para que o direito ao contraditório seja exercido. Não podemos adotar a
prática que primeiro execra publicamente para depois dar o direito de
defesa.
A estratégia do PT de enfrentar a força-tarefa da Operação Lava Jato é correta?
Penso
que o PT vive o pior momento da sua história. Tem que ter calma,
tranquilidade. Nós somos governo e aprendi rápido quando fui prefeito
que instabilidade só serve para a oposição. Quem governa precisa de
estabilidade e paz. Temos que urgentemente operar para acalmar o
ambiente político. Mas tem um embate jurídico que precisa ser travado. A
grande vítima hoje é o PT, amanhã será o PSDB, depois qualquer outro
partido. A criminalização da política cria o pressuposto para o
autoritarismo.
Desde o
escândalo PC Farias, em 1991, tesoureiros têm aparecido no centro de
escândalos de corrupção. É uma atividade de risco hoje?
Você
tocou em algo que me emociona. Quando resolvi assumir a missão, tive
minha família contra mim, meus filhos. Desisti de ser um dos deputados
mais votados de São Paulo para me dedicar integralmente à pior tarefa
que recebi. Quando, por simples disputa política, resolvem me envolver
nessa crise, me sinto indignado.
Do Estadão






