
Enquanto Dilma Rousseff patina na
comunicação das ações de seu segundo mandato, o cenário para o
impeachment se constrói paulatinamente. Pelo menos, é nisso que aposta a
oposição ao governo Dilma.
Economia mal das pernas, queda na taxa de
popularidade, casos de corrupção reportados por uma mídia comprometida
em martelar diariamente o partido da presidente, crise com os aliados no
Congresso e um escândalo do tamanho da Petrobras para ser gerido. São as manchetes diárias.
Se a deposição vai ou não acontecer, não é possível afirmar ainda.
“Por enquanto, é só boato”, avalia a cientista política Argelina Cheibub
Figueiredo, da UERJ, que acha "difícil" que o golpe realmente aconteça.
Mas a inércia de Dilma preocupa, especialmente porque algumas das
condições para o impeachment estão aí. “Tem uma conjuntura, mas não para
na economia, na pesquisa sobre popularidade ou na relação com o
Congresso. Para as coisas caminharem, falta alguém da oposição assumir
publicamente esse pedido. Ninguém pede impeachment abertamente, mas,
para acontecer, bastam fatos novos.”
Nesse quadro, Dilma parece refém da Operação Lava Jato. No aguardo de
que os inquéritos cheguem ao Supremo Tribunal Federal para que, com
sorte, todos vejam que não é o PT, mas partidos de todas as cores
implicados no caso Petrobras.
Na Lava Jato e na tomada de decisões duras, com forte impacto sobre o
cotidiano da população, Dilma não tem demonstrado, nesse início de
governo, nenhuma estratégia de comunicação que defenda seus planos ou ao
menos os expliquem diretamente ao cidadão que lhe depositou um voto de
confiança.
“A comunicação do governo é importante para a popularidade, porque a
oposição já tem espaço nos jornais. É o governo que precisa melhorar
isso, sem que isso signifique se colocar de joelhos perante a base ou
aliados no Congresso. O governo precisa mostrar para a população qual o
problema e o que está sendo feito. [Dilma precisa] Evitar que movimentos
de insatisfação comecem a surgir”, disse Argelina.
Quem sai ganhando?
Em entrevista ao GGN, o senador Roberto Requião
(PMDB) afirmou que não acredita que o impeachment tenha vida fácil no
Congresso, mesmo agora que o "desafeto do Planalto", Eduardo Cunha
(PMDB), preside a Casa. Para Requião, Cunha tem pretensão de ser
candidato a presidente da República em 2018 e, entregar o impeachment de
bandeja para a oposição, agora, seria favorecer o PSDB - que, com Aécio Neves, quase arrancou a reeleição de Dilma.
“Por que o PSDB seria beneficiado? Pela disputa em quatro anos? Acho
que depende de tanta coisa”, observou a cientista política. “Se tudo
ocorrer como ocorreu no impeachment do Collor, o que vai acontecer é o
vice-presidente Michel Temer governando, o PMDB governando. Não sei
dizer se um governo Dilma ou Temer vai fazer diferença para o PSDB”,
disse.
“O que sei é que vemos até nos estudos sobre impeachment na América
Latina isso. Início de greves, insatisfação com medidas impopulares e
movimentos nas ruas antecedem o impeachment. Essa força também
influencia [o clima de golpe no governo] e vai influenciar, inclusive, a
tomada de decisão da oposição para demandar o impeachment.” Daí a
importância da comunicação.
Cabe imaginar, então, quem vai avançar primeiro: Dilma, para evitar a
tragédia anunciada contra seu próprio governo, ou a oposição,
fomentando a insatisfação popular – o principal ingrediente para o
golpe.
Jornal GGN –Cíntia Alves






