
A empresa que presta os serviço para o Estado, a Litucera Limpeza e Engenharia, não serviu café da manhã, neste sábado, 11, para os pacientes do Hospital Geral de Palmas (HGP). "Já era quase 9 horas da manhã quando um pessoal de uma igreja, chamado por uma doutora do HGP e seu marido, passaram nos corredores doando café para os pacientes", denunciou uma servidora. O CT passou horas no hospital para registrar as dificuldades de servidores, pacientes e acompanhantes numa das maiores crises já enfrentadas pela saúde do Tocantins.
Nesta sexta-feira, 10, o CT ouviu relatos desesperados e desabafos de profissionais e pacientes que revelam que um direito essencial está sendo negado à população. Falta de tudo: materiais, insumos (como esparadrapo) e medicamentos. Há suspensão de alimentação para acompanhantes e servidores, dieta escassa para pacientes, equipamentos precários. Esta é a realidade da unidade de saúde referência para o Estado, que também recebe pacientes do Pará, Maranhão e Mato Grosso.
Valdirene Pereira de Jesus saiu de Araguaçu com a filha de 13 anos, que está com a perna quebrada. “Eu peguei dinheiro emprestado para vir, mas já acabou porque eu tive que comprar comida. Os acompanhantes, se não tiverem dinheiro, morrem de fome porque não tem comida”, relatou. “O médico não passa para receitar um remédio para dor e ela também está vomitando toda hora porque só comeu maçã e eles trouxeram uma sopa aí, mas não sustenta”, acrescentou a acompanhante da garota que chorava de dor durante a entrevista.
Para ir ao banheiro, Valdirene e sua filha enfrentavam outra dificuldade. “Não conseguimos nenhuma cadeira de rodas, ela teve que ir pulando ao banheiro”, observou. Os dois equipamentos da enfermaria próxima, além de ficarem continuamente ocupados, não apresentavam segurança. Os acentos estavam amarrados com sacos plásticos e tiras elásticas e os apoios para os pés quebrados.
Ao lado de Valdirene, num pequeno corredor, estava uma paciente recém operada das amídalas. Sua reclamação era quanto à dieta que ela afirma ser “inadequada”. “Biscoito e maçã eu não posso comer. Eu comi só o mingau e o chá, que ainda trouxeram quente”, disse. “Eu queria mesmo que o governador Marcelo Miranda viesse ser atendido aqui. Passasse de 10 a 15 dias aqui internado, ou um familiar dele, para ele saber a situação da pessoa que fica aqui”, desabafou revoltada.
Só um chazinho
Sem se identificar, uma senhora que acompanha o marido na espera de uma cirurgia para retirada de pedras na vesícula confirmou o problema na alimentação. “Não está tendo comida para o acompanhante. Já para o paciente, de manhã é só um chazinho, biscoito e uma maçã; no almoço e na janta é só sopa”, relatou, acrescentando que também está faltando materiais, como gaze e esparadrapo. “Fazer o quê, né? A gente precisa”, concluiu conformada.

Na enfermaria anexa ao Pronto Socorro do HGP, local onde foi improvisado mais de 100 leitos, estava o senhor Antônio da Cruz, de 78 anos. Ele veio transferido do Hospital de Dianópolis com grave problema de circulação e feridas nas pernas, pois na unidade de saúde do seu município não havia médicos para atendê-lo.
Sua acompanhante relatou que, mesmo com risco de perder a perna direita, o procedimento de desentupimento das veias não foi realizado por falta de material. “Ele já estava na sala do exame, mas chegou uma paciente em estado grave e teve que passar na frente. No outro dia, a médica dele disse que não havia material e por isso ele não poderia fazer o procedimento”, contou.
Além da carência de material e alimentação, a jovem criticou a burocracia do hospital e a falta de informação. “É um absurdo. Não tem material, não tem comida e ainda assim é uma burocracia. Eu tive que sair duas vezes para comprar comida e na segunda vez não me deixaram entrar. Só liberaram a entrada quando deu o horário de troca de paciente. Também não dão informação direito. Eu só vim saber no outro dia que ele não tinha realizado o exame”, contestou. Para ela, os problemas do HGP são retratos da “negligência” do poder público. “É complicado. Enquanto as pessoas sofrem e morrem nos leitos dos hospitais por negligência do poder público, os governantes estão preocupados com revezamento de tocha olímpica”, desabafou.
No leito ao lado, o CT presenciou a agonia de um jovem que está há 12 dias com o braço quebrado aguardando uma cirurgia. Em frente, um senhor com tumor na cabeça, também está na fila de espera por um procedimento cirúrgico. A previsão é de que ele seja operado daqui a 40 dias. E assim, as histórias narradas se assemelham, se repetem, apresentando tom de sofrimento, abandono e também revolta.
“Lei do Silêncio”
Sua acompanhante relatou que, mesmo com risco de perder a perna direita, o procedimento de desentupimento das veias não foi realizado por falta de material. “Ele já estava na sala do exame, mas chegou uma paciente em estado grave e teve que passar na frente. No outro dia, a médica dele disse que não havia material e por isso ele não poderia fazer o procedimento”, contou.
Além da carência de material e alimentação, a jovem criticou a burocracia do hospital e a falta de informação. “É um absurdo. Não tem material, não tem comida e ainda assim é uma burocracia. Eu tive que sair duas vezes para comprar comida e na segunda vez não me deixaram entrar. Só liberaram a entrada quando deu o horário de troca de paciente. Também não dão informação direito. Eu só vim saber no outro dia que ele não tinha realizado o exame”, contestou. Para ela, os problemas do HGP são retratos da “negligência” do poder público. “É complicado. Enquanto as pessoas sofrem e morrem nos leitos dos hospitais por negligência do poder público, os governantes estão preocupados com revezamento de tocha olímpica”, desabafou.
No leito ao lado, o CT presenciou a agonia de um jovem que está há 12 dias com o braço quebrado aguardando uma cirurgia. Em frente, um senhor com tumor na cabeça, também está na fila de espera por um procedimento cirúrgico. A previsão é de que ele seja operado daqui a 40 dias. E assim, as histórias narradas se assemelham, se repetem, apresentando tom de sofrimento, abandono e também revolta.
“Lei do Silêncio”
Entre os servidores do HGP e da empresa que fornece alimentação para unidade de saúde, Litucera, a “lei do silêncio” prevalece. Afinal, os funcionários afirmam ter medo de sofrer retaliações. “Ninguém fala nada com medo de perder o contrato”, apontou uma técnica de enfermagem.
Entretanto, duas servidoras concursadas decidiram detalhar o problema que persiste há uma semana. “Está um caos, está precária a situação do hospital. Só sabe quem vem aqui. Desde sexta-feira [dia 3] que não está tendo café, almoço e janta para os funcionários e acompanhantes e os pacientes estão comendo só sopa e bolachinha com chá, café ou mingau. Sendo que antes tinha frutas, suco, bolo. Agora está assim”, afirmou, ressaltando que a deficiência ainda atinge os demais hospitais do Estado. “Em Gurupi e em outras regiões também não está tendo comida”.
Outra servidora relatou que até os copos descartáveis para tomar água os funcionários estavam levando de casa. “Já tem uma semana que está desse jeito, nessa penitência. Não tem copo para tomar água, nós estamos trazendo de casa, e comprando café e almoço”, disse, ao acrescentar: “Tem dia que não tem álcool, tem dia que não tem esparadrapo. Nós estávamos realizando a punção com fita adesiva. Paciente está comprando gaze, atadura de crepom e mandando esterilizar porque não tem no hospital”. Durante a entrevista, os profissionais receberam doação de cerca de dez rolos de esparadrapo. “Para você ver a que ponto chega, está o caos”, avaliou.
A falta de macas e materiais, conforme as técnicas de enfermagem, é comum. “Agora o descaso com o funcionário e o acompanhante é um absurdo”, disparou a servidora. “Eu encontrei uma senhora lá de Barrolândia que tinha almoçado na casa dela dez horas da manhã de um dia e já estava com dois dias aqui sem comer porque ela não tinha dinheiro. Ela estava comendo só o que as pessoas estavam dando”, relatou uma delas.
Para se alimentar, os servidores fazem “vaquinha” entre si, ou levam de casa. “Às vezes o próprio acompanhante dá R$ 2 reais para a gente, porque o nosso pagamento agora só sai dia 12”, contou. “Mas estão até nos barrando ao tentar sair para comprar comida. Pelo visto cada dia vai ficar mais difícil, e o secretário diz que veio para melhorar e fez foi piorar”, criticou a técnica.
Segundo as servidoras, a diretoria do HGP não esclareceu para os profissionais a causa do problema, nem deu uma data para possível retorno do fornecimento da alimentação. “Fomos pegos de surpresa e o motivo ninguém sabe, porque não falam. É só reuniões em cima de reuniões aí na diretoria”, reclamou a técnica de enfermagem.
“Ninguém se pronuncia, ninguém fala nada. Está assim neste descaso. Obrigação era eles darem uma posição para nós porque nós somos funcionários do Estado. Mas ninguém dá satisfação, só fica nós aqui à mercê do tempo, mas temos que vir e fazer tudo, sendo cobrado, e fazer de conta que não está acontecendo nada”, confirmou a outra funcionária.
Por fim, as servidoras criticaram o fato da Litucera continuar prestando serviços para o Estado, apesar de todos os problemas que envolvem a empresa. “Todo dia a gente vê na mídia [notícias] contra a Litucera: é HGP, é lixo, é comida. O que eu não compreendo é que se a empresa não está cumprindo com o papel dela, porque não rescinde o contrato com essa empresa? O que está acontecendo, o porquê isso não é feito se a empresa não está prestando serviço direito?”, questionou.
Outro Lado
Em notas ao CT, na quarta-feira, 8, e nesta sexta, 10, a Secretaria de Estado da Saúde afirmou que os pacientes internados nas unidades hospitalares do Estado estão com "dietas regulares”. A pasta disse ainda estar tomando “todas as providências legais” para voltar a fornecer a alimentação dos servidores de plantão.
Sobre a falta de materiais, a gestão informou que vem trabalhado e “não mede esforços para manter o abastecimento de insumos nas unidades hospitalares, inclusive cobrando fornecedores para que façam as entregas”. Já quanto a carência de cadeiras de rodas, a Saúde esclareceu que está em andamento processo de aquisição destes insumos e que “o HGP faz a manutenção daquelas que existem no hospital para atender a demanda”.
Mesmo com a suspensão do fornecimento da alimentação, a secretaria pontua que não há orientação para a liberação de entrada de alimentos nos hospitais, “visto os riscos que este ato pode acarretar aos pacientes”. A pasta ainda pediu a compreensão dos servidores “face ao momento de crise pelo qual passa o país”.
Ação dos Sindicatos
Ao CT, o Sindicato dos Profissionais da Enfermagem no Estado do Tocantins (Seet) garantiu que está cobrando o Estado. “O sindicato vê isso com muita preocupação porque o governo não prioriza a saúde. Cada dia que passa parece que a situação está cada dia pior. E temos feito as cobranças que é inerente a atuação do Seet”, assegurou o presidente da entidade Claudean Pereira Lima, reiterando que também levou a demanda ao Conselho Estadual de Saúde e ao Ministério Público Estadual (MPE).
O dirigente do Seet ressaltou que a alimentação está suspensa em todos os hospitais do Estado e que a dieta dos pacientes está escassa. “A alimentação dos hospitais é terapêutica e faz parte do tratamento do paciente. Mas no Hospital de Dianópolis estão servindo chá com bolacha. A alimentação lá está tão precária que os médicos não estão querendo internar os pacientes”, informou.
Claudean também apontou a falta de materiais e insumos. “Há cerca de 70 dias que não chega esparadrapo. A falta de materiais e insumos perdura. Trocou de secretário, botou o secretário de outro Estado, mas até agora o que foi feito é só conversa, não melhorou em nada”.
O Seet orienta que os profissionais de enfermagem, na falta de alimentação, têm o direito a sair por uma hora para almoçar, devendo os profissionais registrar no relatório de enfermagem o motivo da saída do profissional e que nestes casos os mesmos devem solicitar nota fiscal do referidos gastos com a alimentação para que a entidade solicite junto à justiça o estorno destes valores. Na terça-feira, 7, o sindicato notificou o secretário de Estado da Saúde, Marcos Esner Musafir, e a empresa Litucera; cobrando o restabelecimento da alimentação nos hospitais. Porém, até o momento, a entidade não havia obtido resposta.
O Sindicato dos Trabalhadores em Saúde no Estado do Tocantins (Sintras-TO) também encaminhou oficio ao MPE na terça-feira, denunciando a suspensão do fornecimento da alimentação. No documento, a diretoria do Sintras frisa que com a suspensão, o Estado obriga o servidor a produzir seu próprio alimento, gerando encargos financeiros que não estavam previstos em seu orçamento.
Para o presidente do Sintras, Manoel Pereira de Miranda, o Estado não está “levando a sério” a questão. “Por isso estamos buscando apoio no Ministério Público em defesa dos servidores públicos da saúde, pois é necessário que a gestão estadual disponibilize a categoria uma alimentação digna e boas condições de trabalho”, disse, ressaltando que a entidade seguirá com as cobranças.
O CT também tentou contato com a Litucera para se posicionar sobre o assunto, mas não teve retorno.
Confira a íntegra das notas da Secretaria da Saúde:
“Secretaria de Estado da Saúde
Nota de Esclarecimento
A Secretaria de Estado da Saúde esclarece que vem trabalhado e não mede esforços para manter o abastecimento de materiais e insumos nas unidades hospitalares, inclusive cobrando fornecedores para que façam as entregas.
A secretaria reforça que o Hospital Geral de Palmas (HGP) recebe grande demanda de pacientes do Tocantins e dos estados do Pará, Maranhão e Mato Grosso e que os profissionais de saúde trabalham arduamente para oferecer o melhor atendimento a quem procura pela a unidade.
Sobre cadeiras de rodas, a Saúde esclarece que está em andamento processo de aquisição destes insumos e que o HGP faz a manutenção daquelas que existem no hospital para atender a demanda.
A Secretaria esclarece ainda que os pacientes internados nas unidades hospitalares do Estado estão com dietas regulares e que está tomando todas as providências legais para a alimentação dos servidores de plantão do Sistema Único de Saúde (SUS).
Palmas - TO, 10 de junho de 2016”
“Secretaria de Estado da Saúde
Nota de Esclarecimento
A Secretaria de Estado da Saúde (SES/TO) vem a público tranquilizar a população e informar que os pacientes internados nas unidades hospitalares do Estado estão com dietas regulares e que está tomando todas as providências legais para a alimentação dos servidores de plantão do Sistema Único de Saúde (SUS).
O Estado não permite que qualquer empresa prejudique o atendimento e tratamento dos pacientes, muito menos a rotina de trabalho dos valorosos servidores que têm o direito a alimentação durante os plantões.
A Secretaria ressalta que a empresa Litucera recebeu em maio, do Governo do Estado, o pagamento de R$ 7,5 milhões e que está em negociação com a empresa Litucera para manter a continuidade dos serviços de alimentação nas unidades hospitalares.
A Saúde ainda esclarece que não há orientação para a liberação de entrada de alimentos nos hospitais, visto os riscos que este ato pode acarretar aos pacientes e pede a compreensão dos servidores face ao momento de crise pelo qual passa o País.
Palmas -TO, 8 de junho de 2016.”
Cléber Toledo






