
"Um governante assumir a sua negritude é um belo sinal que ele pode
fazer para a sociedade”. Apesar da frase dita pelo deputado federal
Vicentinho (PT), neste ano eleito o primeiro negro líder da bancada de
um partido na Câmara na história -, dos 26 Estados do Brasil e o
Distrito Federal que comemoram o dia da Consciência Negra nesta
quinta-feira, em nenhum deles a população verá um governador negro
discursar sobre a importância da data.
Na eleição deste ano, não houve
um eleito para comandar algum dos Estados que se declarou “preto” -
classificação usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatísticas (IBGE) - ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apenas seis
se disseram “pardos”. “As campanhas estão cada vez mais caras e os
partidos buscam candidatos que conseguem angariar recursos.
Os negros,
em geral, estão nas camadas mais pobres e não têm esse poder”, diz o
professor da ECA/USP e coordenador do coletivo de ativistas anti-raciais
Quilombação, Dennis de Oliveira, para quem o fim do financiamento das
campanhas por empresas contribuiria para o equilíbrio dessa balança.
Dennis acha que o sistema dificulta a inserção do negro na política, e
defende a cota nas candidaturas proporcionais – vereador, deputado
estadual e federal. Entre os parlamentares, os negros estão presentes,
mas são minoria.
Nesta eleição, 81 dos deputados federais eleitos se
autodeclararam negros e 22 pretos, ante um total de 513 cadeiras.
Além
de mudança na estrutura política, para o professor, o movimento negro
também precisa repensar seu papel dentro das instâncias políticas. “O
movimento negro tem uma relação muito complicada com os partidos.
Tem
que repensar o que é movimento, o que é partido. Muitos militantes
acabam usando a base de apoio que o movimento proporciona, mas se elegem
e não têm uma política realmente ligada às reivindicações do grupo.
Acabam representando ações individuais, não de um coletivo”, disse.
Reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente segue um
raciocínio parecido ao do professor. “Me parece que o negro não tem toda
a profundidade, todo um reconhecimento da importância da representação
política.
Se não se organizar, nunca vai chegar perto do butim, digamos
assim. Porque se não ganhar esse espaço, não vai receber”, diz José.






