
Spanholo conta que a ideia de virar juiz veio tarde, já no final da
faculdade e por influência de um professor. Até então o objetivo dele
era apenas “melhorar de vida”. A graduação, de acordo com o juiz, já
parecia uma grande superação para ele e os quatro irmãos, que trocavam
de roupa e sapatos entre si para não irem todos os dias vestidos do
mesmo jeito para a instituição.

O trabalho começou cedo. Entre os 9 anos e os 15 anos, os cinco
consertavam pneus e lavavam carros junto com o pai. “Durante o inverno,
as mãos e os pés ficavam quase sempre congelados. Não tínhamos luvas de
borracha e outros equipamentos de proteção que hoje são comuns e
obrigatórios. Só restava fazer muito fogo para se aquecer, mas, com
isso, os choques térmicos eram inevitáveis. Vivíamos com fissuras nas
mãos e pés."
O magistrado diz que a condição levava a família a ser muito severa em
relação à educação e a acreditar que só assim todos teriam melhores
oportunidades. O esforçou coletivo ajudou os cinco irmãos a ingressarem
em uma faculdade de direito que ficava a 250 quilômetros de casa. Para
pagar os estudos, os irmãos tiveram de aprender a costurar cortinas e
edredons e a fazer bordados.
“Depois, com a chegada da habilitação para dirigir, também passei a
trabalhar na área de vendas. Era um desafio diário. Saía sempre cedinho,
rodava o dia todo, batendo de porta em porta pelos municípios da
região, oferecendo nossos produtos diretamente nas casas. Por razões de
economia, meu almoço era sempre debaixo da sombra de uma árvore, dentro
do carro. Cardápio? Algumas fatias de pão caseiro e um pedaço de frango
empanado – e frio – ou uma torrada carinhosamente preparados pela minha
mãe. Bebida? Água que levava dentro de um litro [de garrafa] pet”,
lembra.
Spanholo voltava para casa no final da tarde para pegar o ônibus para
ir à faculdade. Muitas vezes, por causa da distância, não conseguia
tomar banho antes das aulas. As faltas também eram frequentes por causa
do trabalho e aconteciam em média duas vezes por semana. Como
consequência, ele ficou de exame nos dez semestres do curso.
"Na verdade só consegui levar adiante a graduação porque meus colegas
conheciam minha realidade e sempre me emprestavam os cadernos para
copiar ou tirar xerox das suas anotações. Confesso que, durante a
graduação, estudei muito pouco por livros de doutrina, não tinha como”,
explica. “Aliás, meu 'horário de estudos' era no ônibus, durante as
viagens de ida e volta, e aos domingos – os sábados eu usava para fazer
vendas nas cidades mais distantes. A necessidade faz a gente se
reinventar."

Sem familiares e conhecidos na área, Spanholo afirma que só fez a
seleção para a Escola Superior da Magistratura, aos 22 anos, por
insistência de um professor. A instituição fica em Porto Alegre e
oferece cursos de preparação e de aperfeiçoamento para interessados na
área. A aprovação foi uma surpresa, e o jovem precisou se desdobrar
entre trabalhar em escritórios aos finais de semana enquanto passava de
segunda a sexta estudando a 400 quilômetros de casa.
"Tínhamos o filho pequeno, e, em uma decisão muito difícil,
conjuntamente optamos por ‘adiar’ meu sonho de ser magistrado. Em 2010,
decidi retomar tal sonho, mas agora na área federal. Sofri muito para
refazer a base do conhecimento que perdi durante aquela ‘parada
técnica’. Levei um bom tempo para voltar a atingir um ‘nível
competitivo’. Reprovei em muitos concursos. Aliás, de tanto ficar no
‘quase’, acabei ficando ‘especialista’ em calcular e antecipar as notas
de cortes das provas objetivas dos nossos concursos”, brinca Spanholo.
Foram dezenas de seleções desde então. Para se preparar, o magistrado
passou a estudar a vida de pessoas que já haviam alcançado aprovação no
concurso que ele queria. Ele lembra que identificou o que havia de
comum, em relação a estratégias e métodos de estudos, para traçar o
plano de como se prepararia.
“Logo percebi que, por conta das minhas limitações – tempo, lugar,
idade —, muitas delas eu não conseguiria executar, como frequentar
cursos preparatórios, estudar por ‘doutrina pesada’ etc. Sentia que
precisava ariscar estratégias próprias, moldadas na minha realidade.
Experimentei várias. Umas deram certo, outras nem tanto”, diz.
Spanholo afirma que surgiu então a ideia de começar a fazer resumos das
matérias e de grifar as principais leis para voltar a ter uma noção das
principais áreas do direito. Depois, passou a estudar com base em
provas antigas. Ele também fez sinopses de informativos dos tribunais
superiores e usou a internet para pesquisas. Ao final, juntou mais de
200 quilos – em 34 caixas – de material de estudo. O acervo foi
encaminhado para reciclagem.
Para suportar a pressão e o esgotamento emocional, o juiz conta que
também via vídeos motivacionais em redes sociais. Ele lembra que a
preparação o ajudou a manter a tranquilidade no dia da prova oral,
depois de passar quase seis horas trancado em uma sala de confinamento
para ser testado por cinco pessoas sobre conhecimentos em todos os ramos
do direito.
“Naquele momento um filme da vida passa na cabeça da gente. Sem me
abalar, em fração de segundos, lembrei-me de cada fase, dos meus pais e
familiares, das privações, das quedas, enfim, de tudo que tinha se
passado ao longo dos 38 anos de minha existência”, conta. “Entrei
naquele recinto pronto para ‘lutar’ por mim e por todas as pessoas que,
de uma forma ou de outra, acabaram me ajudando a chegar naquele lugar.
Não podia decepcioná-los.”
O resultado do certame para o Tribunal Regional Federal saiu em
novembro de 2014, e Spanholo ficou entre os 60 primeiros classificados.
Surpreso com a boa colocação, ele se diz orgulhoso da trajetória e
atribui o resultado ao esforço e ajuda dos familiares e amigos.
“A vida sempre me ensinou que dificuldades existem para serem
superadas. Aliás, dificuldades todos têm. Uns mais, outros menos, mas
todos enfrentam obstáculos para alcançar seus sonhos. O que diferencia
as pessoas é exatamente a forma como elas reagem diante das resistências
do cotidiano. Uns se acovardam e se deixam dominar. Outros veem nas
dificuldades grandes oportunidades de crescimento, de evolução pessoal”,
afirma.
“No meu caso, desde criança, sempre precisei acreditar naquilo que para
os outros seria motivo de dúvida. Nada nunca chegou fácil. Por
necessidade, treinei minha mente para acreditar que com humildade,
disciplina e motivação era possível vencer um a um os desafios da vida,
mesmo não dispondo das melhores condições para enfrentá-los. Sempre fui à
luta. Nunca esperei que os outros viessem me dizer o que eu poderia e o
que eu não poderia ser. Definia meus objetivos e passava a identificar o
que precisava ser feito para atingi-los”, completou o juiz.

Dizendo-se avesso a publicizar a própria história, Spanholo conta que
tem se espantado com a quantidade de pessoas que diariamente o procuram
para falar que ele as inspirou. Segundo o magistrado, os relatos
extrapolam o mundo dos concursos públicos e têm relação até mesmo com a
vida privada de algumas delas.
“Não sei explicar direito, mas é como se as pessoas precisassem ver
diante dos seus próprios olhos uma prova de que também elas podem
superar seus limites pessoais e alcançar os seus sonhos”, declara.
“Procuro sempre mostrar para elas que, de fato, se um ex-borracheiro e
ex-lavador de carros conseguiu, é porque qualquer outro também poderá
ser juiz federal ou que quiser ser na vida. Basta ter disciplina,
persistência, espírito de superação e, principalmente, acreditar no
nosso próprio potencial.”







